terça-feira, 9 de abril de 2013

Estruturação de artigos científicos e Critérios de autoria em trabalhos científicos.

Este post também foi desenvolvido na disciplina que ministro (Texto Acadêmico: Pesquisa e Publicação) no Programa de Pós-Graduação em Administração – Mestrado em Administração (PPGA) da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Corresponde às reflexões pertinentes aos seguintes temas debatidos em nossa quinta aula: Estruturação de artigos científicos. Critérios de autoria em trabalhos científicos.

Seus autores (e também debatedores na aula) são: Alfredo Heitor Lucato, Gilson Mendes Pinto, Glauber de Almeida Freitas Santos, e Jeferson dos Santos. Este texto foi elaborado sob minha supervisão e orientação.
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Publicar artigos científicos em revistas e veículos especializados de relevância e de reconhecimento não tem sido tarefa fácil para os pesquisadores brasileiros, mormente aqueles que estão em início de carreira. A publicação dos artigos não apenas contribui para a difusão da ciência nas suas diferentes áreas do conhecimento, como também auxilia na divulgação e inserção do pesquisador no mundo acadêmico. Além disso, atende a uma recomendação da Capes no que tange o número mínimo de publicações de artigos científicos em veículos especializados e de relevância, inclusive os do exterior. Segundo a UFPR (2000b) os artigos de periódicos são trabalhos técnico-científicos, escritos por um ou mais autores, com a finalidade de divulgar a síntese analítica e resultados de pesquisas.

Mattos, Job e Trindade (2009) afirmam que [...] “no ambiente científico, a notoriedade de um pesquisador está relacionada à sua produção científica”. Ele é avaliado pelos artigos publicados, projetos desenvolvidos, trabalhos apresentados em congressos, pelas participações em grupos de pesquisa e demais atividades que tornem sua investigação conhecida. Entretanto, a maior visibilidade às pesquisas é dada pelos artigos publicados em periódicos de reconhecimento nacional e internacional, que são classificados segundo determinados critérios, numa lista das publicações mais significativas nas diversas áreas de conhecimento. É importante para o pesquisador conseguir que sua produção seja publicada em periódico de alto impacto, para que ela seja, de fato, divulgada. Esses periódicos procuram manter um reconhecido padrão de qualidade científica e, para isso, utilizam o sistema denominado peer review. (ZIMAN, 1981).

Zanetti et al. (2009) afirma que [...] “muitos pesquisadores enfrentam dificuldades na publicação de trabalhos em periódicos nacionais e internacionais, e entre essas dificuldades destacam-se as pessoais e situacionais. As dificuldades pessoais implicam em reestruturar ou administrar ideias e sentimentos que funcionam como barreiras à redação dos trabalhos de pesquisa. Relacionam-se às perspectivas pessoais e hábitos do trabalho científico; envolvem a necessidade em aumentar a autoconfiança, motivação e criatividade em relação à redação do manuscrito e à elaboração de diretrizes apropriadas para divulgação científica. Essas dificuldades pessoais relativas à publicação, frequentemente, interagem com as barreiras situacionais, como por exemplo, sentimentos frustrados acerca da pesquisa, sensação de pouco tempo e redução de disposição e energia para realizar o trabalho necessário.  A carência de tempo limita o período disponível para leitura e para a redação de textos, tornando necessárias a organização e a priorização das tarefas mais importantes; direcionando-se, com isso, o autor para a meta de publicação dos trabalhos científicos”.

Zanetti et al, (2009) afirma que [...] “outro fator preponderante e problemático consiste na dificuldade em identificar o veículo mais adequado para divulgar a pesquisa, ou seja, dificuldade em conhecer e utilizar critérios pertinentes à seleção de periódicos para publicação. Além da dificuldade em distinguir apropriadamente se a temática a ser pesquisada é suficientemente relevante ou não para fins de publicação.   Ressaltam-se também, dentre os aspectos problemáticos à publicação: a inadequação da amostra e da descrição dos instrumentos, o restrito conteúdo do artigo, a superficialidade de como o objeto de investigação é abordado, a revisão da literatura inapropriada, a pouca originalidade, a ambiguidade da pesquisa e as formulações vagas das hipóteses, entre outros.

A organização da escrita do trabalho científico

A comunicação científica é parte inerente do desenvolvimento da ciência. Gusmão (2011) afirma que a escrita científica constitui uma continuação do fazer ciência, derivando suas normas da própria metodologia científica. A lógica da pesquisa científica e da comunicação determina a construção do texto, exigindo determinada estrutura na redação de cada etapa dele. “Redação é uma forma de comunicação escrita que deve ser acessível às pessoas interessadas em entrar em contato com determinada área do conhecimento. Por isso, ao redigir um trabalho científico é necessário que se leve em conta o perfil do leitor que irá ler aquilo que se pretende comunicar, procurando escrever de maneira compreensível.”

Segundo Marques (2011A; p.1), “os pesquisadores brasileiros estão sendo desafiados a demonstrar habilidades além da produção e a publicação científica, que seria a capacidade de escrever de forma lógica e correta e em inglês, que é a língua da ciência. A consolidação desta tendência se verifica com a criação de empresas especializadas que, além de oferecer serviços de tradução e revisão de artigos, também cria oficinas e cursos de treinamento para a orientação de pesquisadores interessados em colocar suas pesquisas no papel’, como é o caso da PUBLICASE, citado por Marques (2011a; página 1), ou mesmo serviços de edição de papers aonde o texto é trabalhado por editores especialistas no assunto e revisto por outros profissionais, citado por Marques (2011a; página 2), além de outros exemplos que reúnem até uma rede de doutores em vários campos do conhecimento, com ênfase na edição, tradução e revisão de artigos escritos por pesquisadores que não tem o inglês como língua nativa.

Para ajudar a transpor uma das barreiras que dificultam a publicação de artigos em periódicos, a Publicase destaca, ainda, os cuidados na redação da carta de apresentação ao editor da revista que se pretende submeter o artigo. O autor deve redigir a carta ressaltando os resultados de sua pesquisa de forma coloquial e mais ousada do que fez no artigo. Para evitar que o artigo caia nas mãos de um revisor mais preconceituoso, o pesquisador pode pedir que o paper não seja enviado para avaliação de competidores ou desafetos, citando-os nominalmente.

Para aqueles que desejarem maiores informações sobre metodologias e “dicas” como escrever um artigo científico recomendamos acessar o sitio da Enago no endereço http://www.enago.com.br/blog/tag/publicacao-em-revistas-cientificas/.

A frase de Ernest Hemingway, citada no artigo de Marques (2011a; p. 1), de que o escritor deve “cortar todo o resto e ficar no essencial”, deveria ajudar a prevenção de acidentes na redação científica, casos comuns apontados pelas empresas especializadas, às chamadas frases suicidas, quando o autor resolve contar que outros artigos já chegaram à mesma conclusão. Portanto, não se agrega nada de novo, fazendo com que editores se desinteressem. Segundo especialistas da empresa PUBLICASE, seria mais produtivo dizer qual é o forte daquele artigo, de forma a despertar o interesse pela publicação.

O trabalho feito pela empresa em questão já vem sendo discutido em diversos artigos e livros que detalham e tentam explicar de forma clara e objetiva para os leitores a importância de um resumo bem feito, de acordo com as normas ABNT. O resumo é uma carta de visitas e será o termômetro se o artigo será contemplado com a leitura completa ou não (ABRAMCZUK et al., 2012).

A importância foi detalhada em pesquisa realizada em 2012 e publicada na revista Perspectivas em Gestão & Conhecimento, v.2, n.1, que diz que apenas 27% dos artigos analisados relatam a metodologia aplicada. Por outro ângulo de visão, 41% dos materiais analisados apresentam apenas uma pista do tema que será abordado no artigo e 46% apenas relatam o resultado alcançado nas pesquisas (ABRAMCZUK et al., 2012).

Não mais importante, porém com relevância, o título é uma questão que é tratada de forma prolixa pelos autores, segundo (MATOS, 1988). Os títulos em muitas vezes possuem “prolixidade intelectual.” (MATOS, 1988 p.778).

O artigo de Matos traz exemplos de títulos que não esclarecem para o leitor o que realmente será tratado no artigo como: “Distribuições populacionais, ou ainda Regência e desempenho em Salvador? Conseguiria o leitor relacionar cada título à respectiva área? No exemplo, correspondem designações aos campos da economia, ecologia e linguística.” (MATOS, 1988 p.778).

Não obstante não devemos deixar de considerar a colaboração científica e o quanto ela vem despertando o interesse da comunidade científica há alguns anos. A assertiva de Ziman (1979) foi precedida por Bernal (1939) que afirmou ser a ciência uma atividade eminentemente social, visto que os resultados por ela produzidos são utilizados pela e em prol da sociedade. A colaboração científica se dá com a caracterização de dois mais cientistas trabalhando e contribuindo para a construção de um mesmo projeto de pesquisa, o conceito clássico, a colaboração se caracteriza pelo compartilhamento de dados e ideias em um mesmo projeto.

Segundo Sonennnwald (2008), a colaboração científica pode ser definida como a interação que facilita não só a realização de tarefas, mas, também, o compartilhamento do significado desta tarefa, relacionada a um objetivo maior compartilhado entre dois ou mais cientistas.

É interessante ler este post do Blog do SciELO em Perspectiva: Os créditos do autor… autor do quê?

Sobre critérios para autoria, indica-se a leitura do post Crédito para todosdo Blog do SciELO em Perspectiva.

A redação do artigo científico

Conforme Gusmão (2011) [...] “ciência são os dados e a interpretação desses dados”. A redação científica é o meio para defender essa interpretação. Os dados são obtidos a partir do estudo das variáveis (tudo o que pode ser estudado pelo método empírico, ou seja, por meio dos sentidos). O estudo das variáveis e a interpretação dos dados obtidos (a pesquisa) são realizados para responder a uma pergunta. Dependendo do tipo da pergunta, pode ser necessário ou não elaborar uma resposta provisória, não testada: hipótese.

Gusmão (2011) estabelece as seguintes considerações e critérios na redação de um artigo científico:
A pesquisa pode ser dividida em três tipos:
- descritiva (sem hipótese);
- de associação sem interferência (testa hipótese de associação); e
- de associação com interferência (testa hipótese de causa e efeito).

Esta divisão determina consequências na construção e redação da pesquisa. A lógica do tipo de investigação acima mencionada deve refletir-se ao longo de todo o texto. Assim, se o título indicar um estudo realizado conforme um dos tipos de pesquisa, isso deve se refletir na fundamentação, no objetivo, no delineamento do trabalho e na conclusão. O texto científico deve mostrar o que foi feito, por que foi feito, como foi feito e o que foi encontrado.

Um artigo científico contém elementos complementares sendo o texto completo constituído pelas seguintes partes: título, resumo, introdução, material e métodos, resultados, discussão e referências bibliográficas. Essa é a sequência na qual o texto é publicado, mas não necessariamente a ordem no qual é escrito ou lido.

O texto científico é do tipo argumentativo (dedutivo ou indutivo), ou seja, uma série de proposições ou premissas que relacionam com outra proposição (conclusão). O texto científico é formado por dois argumentos lógicos: um na introdução e outro no conjunto formado por Material e Métodos, Resultados e Discussão. Na introdução, a contextualização e a justificativa (premissas) validam o objetivo. No segundo argumento lógico, as informações derivadas de Material e Métodos, Resultados e Discussão (premissas) devem ser conectadas para sustentar a Conclusão.

Para a redação do artigo científico Magnusson propôs a sequência backwords (de trás para frente) na seguinte forma:
1. Conclusão: inicialmente é escrita a conclusão, de forma clara e precisa. O restante do texto será estruturado em função dessa conclusão.
2. Resultados: somente os necessários para sustentar a conclusão. Escolhe-se a melhor forma de apresenta-los (figuras, tabelas ou textos), procurando evidenciar os mais importantes para fundamentar a conclusão.
3. Material e Métodos: somente os necessários para a obtenção dos resultados apresentados para sustentar a conclusão.
4. Discussão: somente os argumentos relacionados e necessários para sustentar a conclusão.
5. Introdução: somente o mínimo de informações necessárias para apresentar o objetivo, ou seja, o problema respondido na conclusão.
6. Título: baseado na conclusão ou no objetivo (problema).
7. Resumo: apresentação sintética dos pontos relevantes do texto relacionados diretamente com a conclusão.
8. Referências bibliográficas: somente as necessárias e essenciais para validar a Metodologia, os Resultados e a Conclusão.

No que tange a linguagem científica durante a redação do texto, devemos ater primeiro ao conteúdo, ou seja, às partes metodológicas e aos elementos da argumentação para validar a conclusão. A seguir, procura-se adequar a forma, realizando a melhor construção para dizer o conteúdo. As qualidades essenciais da forma do texto científico são clareza e concisão. Concisão é o emprego de menor número possível de palavras para exprimir o pensamento, uma vez que palavras desnecessárias poluem o texto. Quanto mais simples a linguagem maior será a clareza.

Para a linguagem clara, utilizar: 1) frases curtas e na ordem direta (sujeito verbo e complemento); 2) escolha palavras acessíveis ao maior número possível de leitores; 3) opte pela palavra mais simples que melhor defina a coisa ou situação referida; 4) evite termos técnicos desnecessários e, quando absolutamente indispensáveis, não deixe de explica-los; 5) use o tempo verbal adequado.

O tempo verbal varia com a lógica de cada parte: a descrição dos sujeitos, da metodologia da pesquisa (Material e Métodos) e dos resultados (Resultados) é feita no passado; as citações de ideias e conclusões do trabalho são colocadas no tempo presente; na redação do Objetivo usa-se o infinitivo. Atualmente a tendência na redação é o uso da primeira pessoa (eu ou nós).

Quadro 1 SUGESTÕES DE VERBOS PARA SEREM EMPREGADOS NA LINGUAGEM CIENTÍFICA
VERBOS
acreditar Constatar Inferir Propiciar
analisar Demonstrar Julgar Proporcionar
apreciar Elaborar Notar Refletir
avaliar Estudar Observar Sugerir
concluir Evidenciar Oportunizar Supor
configurar Examinar Perceber Verificar
considerar Identificar Pesquisar Visualizar
Fonte: UNEMAT (2013)

Quadro 2: Resumo de como redigir um trabalho científico
TÓPICO RECOMENDAÇÃO
Tipo de leitor Acessível a qualquer profissional da área
Clareza Obedecer a uma lógica de pensamento
Precisão Palavras e expressões não devem possuir duplo sentido
Objetividade Evitar prolixidade, verbalismos, adjetivações, repetições e o supérfluo.
Linguagem Impessoal
Expressões taxativas Evitar expressões como: afirma-se, comprovou-se
Períodos e parágrafos Preferencialmente curtos
Texto Inter-relação entre as partes formando um significado global.
Fonte: UNEMAT (2013)

Links recomendados:
Referências
ABRAMCZUK, C.; DILLY, M.; ENGELBERT, R.; GRAEML, A. R. Metodologia científica: análise e reflexão sobre a eficácia dos resumos de artigos acadêmicos. Perspectivas em Gestão & Conhecimento, v. 2, n.1, n. Xv, p. 170-181, 2012.
MATOS, F. G. DE. Pontos de vista. Ciência e Cultura, v. 40, n.8, p. 778-779, 1988.
UFPR – Universidade Federal do Paraná – Normas para apresentação de documentos científicos. 2000b. Disponível em: http://www.serprofessoruniversitario.pro.br/m%C3%B3dulos/metodologia-da-pesquisa/artigo-cient%C3%ADfico-orienta%C3%A7%C3%B5es-para-sua elabora%C3%A7%C3%A3o#.UV9CDpOG2jg. Acesso em: 03 abr. 2013.
A arte da comunicação do conhecimento científico, por Camila Rezende Pimentel Ribas, Maria Lúcia Zanetti, Maria Helena Larcher Caliri. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/fen_revista/v11/n3/v11n3a32.htm. Acesso em: 03 abr. 2013.
Texto interessante em Redação de artigo científico – UFMG por Sebastião Gusmão (2011).
Sugerimos o texto Processo de revisão pelos pares: por que são rejeitados os manuscritos submetidos a um periódico científico?. Ivone Job; Ana Maria Mattos. Alexandre Trindade. Revista Movimento - Vol.5, n.03 – 2009.
BERNAL, J.D. The social function of science. London: G. Routlege, 1939. 482 p.
SONNENWALD, D. H. Scientific Collaboration. Annual Review of Information Science and Technology, New York, v. 42, n. 1, p. 643-681, 2008.
ZIMAN, J. M. Conhecimento público. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da USP, 1979. 164 p.

Postagem atualizada em: 28.08.2014

























































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