segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Classe média enfraquecida

Na Mídia

Classe média enfraquecida
Pessoas que mantinham um bom padrão econômico, mas que, nos últimos anos, testemunharam a decadência de um segmento social conhecido como ‘‘classe média’’.

Classe média enfraquecidaDa Reportagem
RIVALDO SANTOS

Cinco anos atrás, o empresário Ricardo Gomes de Oliveira era um típico membro da classe média santista. Residia em imóvel próprio no Gonzaga e tinha um carro do ano na garagem. Não economizava dinheiro em restaurantes e viagens.
  Hoje, Oliveira mora de aluguel em apartamento no Parque Bitaru, em São Vicente. E, com muito sacrifício e dignidade, sustenta a família com o faturamento de uma microempresa que atua na área de segurança particular.
  Com pequena nuança, o enredo da vida do microempresário se assemelha ao de muitos outros brasileiros. Pessoas que mantinham um bom padrão econômico, mas que, nos últimos anos, testemunharam a decadência de um segmento social conhecido como ‘‘classe média’’.
  Perda do emprego, aposentadoria, endividamento em banco e fracasso nos negócios são alguns dos motivos para a perda da qualidade de vida. No caso do microempresário, a alta carga tributária foi fator preponderante. ‘‘O governo era o meu sócio majoritário. Só que chega uma hora que você não aguenta mais’’.
Perseguição
  A queixa do empresário tem fundamento. Neste ano, 68% da arrecadação do Imposto de Renda serão bancados pela classe média, com renda familiar de R$ 3 mil a 10 mil mensais. A classe alta, que ganha acima de R$ 10 mil por mês, contribuirá com bem menos: 23% da receita do leão.
  Há até quem enxergue uma ação deliberada para destruí-la. ‘‘A direita brasileira sempre viu a classe média ‘ascendente’ como um perigo a ser extirpado. Uma ameaça ao status quo’’, afirma o consultor e administrador Stephen Kanitz, em artigo que recebeu o sugestivo título A destruição da classe média. Kanitz denuncia outro tipo de ‘‘perseguição’’, de corrente ideológica totalmente oposta. ‘‘A classe média também é combatida pela esquerda, que a considera a grande inimiga, a chamada ‘burguesia’, com os seus valores ridicularizados, como disciplina, poupança, sexo com amor, trabalho, sacrifício em prol da família e religião’’.
A queda
  A crítica de Kanitz está alicerçada em dados históricos. A classe média brasileira cresceu na sombra do regime militar, período em que o País investiu pesado na industrialização. Tempos de repressão à liberdade de expressão, mas também do ‘‘milagre econômico’’, consolidado com a chegada das empresas multinacionais.
  Na carona do progresso, surgiram novos empregos, dominados pela ‘‘nova’’ classe média brasileira. A incipiente camada social nacional se expandiu com o ingresso de profissionais qualificados, como engenheiros, advogados, economistas, entre outros com diplomas universitários e técnicos.
  ‘‘Foi o apogeu da classe média’’, avalia Cassiano Ricardo Martines Bavo, mestre em Economia e doutor em Ciência Sociais pela PUC de São Paulo.
  Da ascensão ao abismo foi um passo. Os sinais da queda surgem na década de 80. Nos anos 90, a crise já estava instalada. O milagre era falso. ‘‘Havia um grande número de profissionais qualificados. Só que o desenvolvimento do País não cresceu o suficiente para atender a demanda’’, explica a historiadora e cientista política Clara Versiani dos Anjos Prado.   O resultado de tudo isso pode ser traduzido em poucas palavras: desemprego, baixos salários, terceirização de serviços, violência e declínio social. ‘‘A gente se sente frustrado diante do insucesso. É nesse momento que a família é fundamental para a superação’’, revela o microempresário
No supermercado, a certeza de que o poder de compra despencou
Da Reportagem
  Um olhar mais atento nos carrinhos de supermercado já é suficiente para perceber as mudanças no padrão econômico da classe média. Aquele refrigerante tradicional foi substituído pelo similar. Outros produtos ‘‘famosos’’ também perderam mercado para os ‘‘anônimos’’. Foi uma saída para manter o consumo diante de uma renda menor.
  ‘‘A classe média descobriu que as marcas secundárias têm qualidade e são produzidas pelos mesmos fabricantes das tradicionais’’, diz Alberto Claro, professor de Marketing da UniSantos e da Unimes.
  A principal barreira é vencer o preconceito. ‘‘Há uma necessidade de acomodar os gastos à nova realidade’’, explica o coordenador de pesquisa do Núcleo de Estudos Socioeconômicos (Nese), da Unisanta, Jorge Manuel de Souza Ferreira.
  Mas o processo não é fácil. Tem consumidor que até coloca o produto no carrinho de um modo que não seja possível identificá-lo.
  Na lojas populares, principalmente as que vendem artigos femininos, consumidores chegam a pedir ao empacotador que o embrulho seja feito com um papel sem o timbre da loja. ‘‘Muitas gostam da mercadoria, mas sentem vergonha em levá-la’’, conta uma vendedora.
Omissão
  Além dos produtos populares, a classe média passou a recorrer ao serviço público. Sem condições de pagar os caríssimos planos de saúde e mensalidades escolares, só restou a rede pública.
  Para o professor José Pascoal Vaz, que ministra aulas de Economia Política na UniSantos, a baixa qualidade é um ônus que se assume pela própria ‘‘omissão’’ da classe média.
  ‘‘Quando caiu a qualidade do serviço público, a classe média preferiu migrar para a rede privada, ao invés de defender os seus interesses juntamente com as camadas mais pobres’’.
Renda define camadas sociais
Da Reportagem
  Muitos se intitulam integrantes da classe média, mas poucos conseguem conceituá-la com exatidão. Nem mesmo os estudiosos no assunto. Aliás, o que é classe média?
  Para começar, não existe uma regra única. São vários os parâmetros utilizados para definir as famílias desse grupo social, que, segundo especialistas, está em processo de extinção.
  Profissionais de venda levam em consideração os bens de consumo. Uma família que possua um determinado número de eletrodomésticos, como televisores e DVD, por exemplo, pode pertencer à seleta camada.
  No entanto, o rendimento ainda é o fator que prepondera na conceituação. ‘‘Há três classes: a baixa, a média e a alta. A primeira é a da família com renda inferior a três salários mínimos. A média, de três a 20 salários. E a alta, acima de 20 mínimos’’, explica a professora de Economia da UniSantos Josefa Barbeirá Molina Poleti.
  Quando se busca maior precisão na terminologia, a classe média é fatiada em três subgrupos: média-baixa, média-média e média-alta (ver quadro).
   ‘‘Santos é uma cidade tipicamente de classe média. Não há grandes picos de miséria, nem de riqueza. A renda da população está acima da média do Estado’’, diz a economista.
E o pobre?
  A previsão de desaparecimento da classe média, feita por teóricos, é tida como um ‘‘exagero’’. A economista admite que o momento é de apreensão, mas há quem tenha mais motivos para se preocupar. ‘‘Se a classe média está mal, a baixa encontra-se ainda pior. Só o rico que nunca sofre com a crise’’.

Saiba mais
Divisão de classe (*)
Baixa - até 3 salários mínimos
Média - de 3 a 20 salários
Alta - acima de 20 mínimos
Subdivisão da média
Média/baixa - 4 salários mínimos
Média/média - de 4 a 8 salários
Média/alta - de 8 a 20 mínimos
(*) Renda por família
Obs.: Os valores podem variar conforme a metodologia adotada
Fonte: Professora Josefa Barbeirá Molina Poleti
Historiadora alude à burguesia
Da Reportagem
  A qualificação de ‘‘pequena burguesia’’ não é recente. Surgiu após o período feudal, no século XVII, com os pequenos proprietários de terra que detinham os meios de produção. Com a evolução capitalista, esse estrato social cresceu, ganhando a adesão de industriais, empresários e comerciantes.
  Mas o grupo não é formado exclusivamente pelo setor econômico da sociedade. Outros profissionais também gravitavam em torno da riqueza produtiva. São jornalistas, advogados, professores, médicos e demais liberais que compõem o segmento ideológico.
  ‘‘No Brasil, um país emergente, a cultura da classe média é predominante da pequena burguesia’’, explica a historiadora e cientista política Clara Versiani dos Anjos Prado.
  Apesar do caráter pejorativo da expressão, a professora da UniSantos destaca aspectos positivos do grupo. ‘‘São pessoas que têm na família o seu universo. Valorizam a propriedade, mas também o ambiente doméstico e a educação’’.
Decepção
  A crise econômica não afetou apenas o padrão de vida da classe média. O maior envolvimento de jovens com a violência urbana é outro reflexo preocupante. ‘‘Se há tráfico de drogas e contrabando é porque há quem consuma. E esse é um problema da classe média’’, disse o sociólogo e então presidente Fernando Henrique Cardoso.
  A cientista política não concorda com a generalização. Ressalta, porém, que a degradação social é um dos sintomas. ‘‘Houve uma grande decepção na classe média ao constatar que a aquisição do conhecimento não era mais suficiente para ascensão social. Hoje, valoriza-se o enriquecimento rápido pelo individualismo, em detrimento de valores morais que sempre defendeu’’.
Quem enfrenta dificuldades demora a aceitar nova realidade
Da Reportagem
  Pior do que o declínio social é admitir publicamente o estado de insolvência. Apesar de A Tribuna ter mantido contato com seis pessoas da classe média — todas passando por dificuldades econômicas — ninguém quis gravar depoimento. Foto, então, nem pensar. Quem sempre manteve um bom padrão de vida demora a aceitar a nova realidade.
  ‘‘Tenho vários colegas que estão com o cartão de crédito estourado, vários meses de condomínio atrasado e até são perseguidos por oficiais de justiça na cobrança de dívida. Mesmo assim, continuam andando com carro do ano, como se nada estivesse acontecendo’’, diz o microempresário Ricardo Gomes Oliveira, que corajosamente aceitou o convite para relatar a sua luta.
  ‘‘Enfrentei a situação. Vendi os meus bens, paguei todos os meus credores e fui à luta. Sempre gostei de andar de cabeça erguida’’.
Tempo
  Professor de Economia e Sociologia Geral, Cassiano Ricardo Martines Bovo reconhece as dificuldades da classe média em conviver com o novo padrão de vida. ‘‘Ela não estava acostumada com o desemprego. É preciso um tempo para se aceitar as mudanças provocadas pela perda de rendimentos’’.
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